África<br>um combate que é também nosso

Albano Nunes

Com os EUA a anunciar mesmo a criação de um comando militar para o continente

A ofensiva recolonizadora do grande capital em África (e no mundo) é acompanhada de uma (des)informação profundamente ideologizada, em que os povos e países que o imperialismo pretende dominar são apresentados de mão estendida, pobres e agradecidos, dependentes da «ajuda» externa, incapazes de se governar. Aqueles que pilham os seus recursos e são responsáveis pelos drama do seu atraso secular, poderão assim exibir uma «filantropia» que disfarce a natureza criminosa dos seus fabulosos lucros (Soros, Bill Gates....) e justificar uma «ingerência humanitária» cada vez mais militarizada e brutal. Os africanos que não se conformam com a sua sorte são invariavelmente retratados como terroristas, mercenários, ladrões, malfeitores da mais variada natureza. Nunca como resistentes e revolucionários.

O imperialismo, que sempre teve os olhos postos em África, e que mesmo nos momentos mais exaltantes do poderoso movimento de libertação anti-colonial nunca se deu por completamente vencido – é lembrar o duro caminho que os povos da África do Sul, da Namíbia, do Zimbabwé ou das antigas colónias portuguesas tiveram ainda de percorrer – volta-se de novo em cheio para África, ameaçador. Aquele que foi designado de «Continente esquecido» nunca realmente o foi. As multinacionais e o imperialismo nunca abandonaram as suas ambições no continente negro. A primeira onda revolucionária anti-colonial libertadora cedo caiu nas apertadas malhas do neocolonialismo. Foi para avançar pelos caminhos da independência e do progresso social que um grande número de países tomou na década de 70 um rumo anticapitalista, de opção socialista. Tal opção revelou-se porém mais complexa do que o previsto e ficou comprometida pelo desaparecimento da URSS e do socialismo como sistema mundial. Ganhou-se uma experiência histórica de grande valor. Mas o imperialismo tirou também as suas lições e, para impedir que os povos africanos se erguessem numa nova vaga libertadora, decidiu jogar forte, já não apenas no neocolonialismo mas na recolonização do continente. A sua frontal hostilidade ao desenvolvimento das relações de países africanos com a China, Venezuela e outros países, é bem significativa do seu propósito de impedir que o continente negro possa avançar pela via de um desenvolvimento soberano.

A África é de há muito palco das disputas inter-imperialistas, nomeadamente entre a França e os EUA, e o que se verifica no terreno é uma agudíssima luta pela repartilha de esferas de influência. Luta em que de momento predominam o compromisso e a concertação para a realização de uma mesma política de classe e - nomeadamente entre a UE e os EUA - uma divisão de tarefas em que, a par das conhecidas políticas de pilhagem lideradas pelo FMI, BM e OMC (programas de «ajustamento estrutural», liberdade de movimentos para as multinacionais, troca desigual, garrote da dívida) se intensificam as ingerências e pressões militares. Com pretextos como os do combate à emigração ilegal ou ao terrorismo a NATO e a UE alargam a sua esfera de intervenção a África, e as grandes potências rivalizam na corrida militar, com os EUA a anunciar mesmo a criação de um comando militar para o continente.

Portugal em contradição aberta com a Constituição está a participar activamente nesta corrida, com o Governo do PS a oferecer-se na NATO e na UE como intermediário da recolonização (como uma vez mais se viu na reunião ministerial de Lubliana) e a colocar a próxima Presidência Portuguesa da UE ao serviço da política agressiva europeia em África, esperando receber em troca algumas migalhas do botim imperialista. Trata-se de uma política indigna do Portugal de Abril. O PCP combate-la-á activamente, estreitando as suas relações com as forças revolucionárias e anti-imperialistas africanas e certo de que as aspirações libertadoras de heróis nacionais como Nkrumah, Amílcar Cabral, Patrice Lumumba, Agostinho Neto, Samora Machel e tantos outros, acabarão por triunfar.


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